A transcendência e o vazio: uma experiência em Israel
...Embora todos os momentos desta viagem tenham sido especiais, dois me marcaram profundamente. Como se fossem duas experiências, ou formas, de relação com o sagrado.
O primeiro ocorreu no "Mar da Galiléia" ou Lago de Genesaré. Neste lugar, houve momentos de plenitude, o sagrado ali era abundância, era transbordamento.
Nada precisava ser dito naquele lugar. Bastava ficarmos sentados à beira do lago, escutando o vai e vem das ondas, e a carícia do vento na vegetação que nos rodeava.
A noite o céu estava sempre estrelado e a temperatura amena.
No dia que deixamos a região do lago de Genesaré, no caminho para Jerusalém paramos as margens do rio Jordão, e fomos batizados por Jean-Yves.
Este momento foi muito marcante também pois representou para mim uma grande comunhão com o grupo.
Todos nós escolhemos nossos nomes. Então, houve um novo momento de apresentação mútua e testemunhamos o acontecimento em que cada um se dirigia ao rio escolhendo ser ele mesmo, em seu próprio nome.
O segundo momento foi em Jerusalém. Na cidade que leva a "paz" em seu nome ("shalom") a disputa pelos símbolos e pelo sagrado é grande.
Quando falamos de sagrado, falamos daquilo que é destacado, diferente, santo. Cada grupo então para marcar a sacralidade de seus rituais, de seus templos de oração, se destacam, se diferenciam uns dos outros e reivindicam que o espaço de terra em que pisam é sagrado.
Esta experiência para muitos de nós é significante.
Ainda mais, quando carregamos conosco valores e práticas religiosas das quais dificilmente queremos abdicar.
Então, como não relativizar estes nossos valores perante o outro que reclama absolutamente também a possibilidade de manifestar seus próprios valores?
Tive que lembrar de algumas palavras de Jean-Yves. "Não há lugares ou terra santa, mas talvez haja uma maneira santa de andar por sobre a terra".
Se não tomássemos os objetos de nosso desejo como se fossem nosso próprio desejo, poderíamos permanecer abertos a tudo e a todos.
Vivenciar o vazio deste desejo, não restringi-lo a objetos finitos e impermanentes, nos manteria no infinito.
A experiência deste esvaziamento senti de maneira concreta na Igreja do Santo Sepulcro.
Logo que coloquei meus pés dentro da igreja, veio a frase em minha mente "Deus não está aqui, Jesus não está aqui".
E ele não está lá mesmo, ele ressuscitou. E devemos nos lembrar disso; a mensagem de Jesus não termina na crucificação.
Há o dia seguinte, em que o túmulo está vazio e o amor é sempre eterno.
Então é importante manter o túmulo vazio, nosso desejo sempre aberto para que nossa mensagem não seja de morte mas de vida.
Para não utilizarmos de nossos valores, crenças como armas para agredir nosso próximo.
A partir disso, sinto que minha fé está mais inteligente.
Intelligere, donde vem a palavra inteligência, significa conhecer por dentro, estabelecer conexões visando a unidade.
Isto é uma espécie de presente, é também uma espécie de luz.
"Deus sendo luz, não o vemos, ele é o que nos permite ver" (Jean-Yves Leloup)
Daniel M. de Oliveira



2 Comentários:
Grande texto, Dan!
Pena não podermos disponibilizar as mais de 700 fotos que você tirou nos caminhos por onde Jesus esteve.
Escreva mais.
Daniel no mar da galilea!! uaauuu que experiencia incrivel!
saudades de vc meu amigo!
beijo grande
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